Dia 105 – Não à Fome

fome
1 Reis, 17:14;24 – (14) Pois assim diz o Senhor Deus de Israel: A farinha da vasilha não se acabará, e o azeite da botija não faltará, até o dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra. (24) Então a mulher disse a Elias: Agora sei que tu és homem de Deus, e que a palavra do Senhor na tua boca é verdade.

A grande mensagem da criação do mundo por Deus não está na criação propriamente dita, mas em seu plano maior. Ele pensou cobrir os cantos da própria existência rompendo a sacralidade e eternidade que o definem, e criou um mundo onde sua centelha é capaz de superar-se, consolidando-se e evoluindo na sabedoria colecionada no caminho seguido. Esse plano maior estabelece, em sua sabedoria infinita, a capacidade da existência quer pelo compartilhamento do mundo em que vive, quer pela  criatividade de novos saberes protetores e impulsionadores da vida.

Sim, ao criar-nos Deus deu-nos não só sua centelha e a vida que a carrega, como também um mundo capaz de alimentar-nos. Nosso corpo, invólucro sagrado e vulnerável, depende do mundo e do próprio saber para sustentar-se e manter-se vivo. Deus sempre proverá o alimento que nutre o corpo. Nossa fé baseia-se em um Deus que reside no próximo que nos permite ter a comida do corpo e, por relação, também o pão da alma.
Este plano de Deus, o mundo farto de alimento, quer da farinha, quer do azeite, jamais acabará. Infinito como Deus por ser ele próprio transmutado em centelhas espalhadas, a terra batida, a água e a semente, nos dão de comer. Exilado e ungido, Elias sabia que Deus desenhara seu caminho e nele se apegou. Se lhe dava, e também à viúva e seu filho, uma botija de pouca farinha e pouco azeite, era porque não lhes faltaria. Se faltasse, era porque o pecado ao lado havia corrompido e os homens – e não Deus – lhe puniam.
À viúva, as amarguras da vida a impediam ver a verdade de que Deus não abandona a si próprio, depositado nela. Ele tem uma meta de cobrir os cantos do mundo como divindade pontualmente mortal e, por isso, proverá sempre. Deus quer o que o homem não quer e eis o jogo. O ego é o celebrar da própria pequenez, e a fome do mundo é a permissão de que essa pequenez se instale. Deus nos deu o mundo e seus frutos, e tudo é de todos nós que, iguais em essência, temos direito ao alimento que nos mantém vivo.
O pecado é a divergência do plano original de Deus. Assim, a fome é um pecado fundamental pois distancia a vida de seu rumo normal, projetado por Deus. Estamos no mundo para, seguindo o homem e seu candeeiro ou não, aprendermos com a dor das pedras do caminho e, passo a passo, construirmos a sabedoria que nos capacita a mergulharmos na fonte de onde viemos. No caminho, somos carregados e carregamos, esvaímos e retomamos a força que nos leva em frente, sendo inspirados e inspirando, sendo tentados e tentando, mas sempre em frente.
A fome, por outro lado, desvirtua esse projeto. Desvirtua no sentido estrito da palavra, pois tira da vida a virtude de aprender com o caminho. Com a fome, somos ensinados que nos resta lutar pelo próximo prato e não pela consciência da própria vida, e mais que andar nas pedras, precisamos manter nossos corpos inertes, no mesmo lugar, esperando o próximo prato.
Eis o legado dos novos tempos. Estamos deixando de ser seres filosofais imersos em um mundo de sabedorias escondidas e prontas a serem desvendadas, para tornarmo-nos máquinas de guerra pela saciedade da fome de hoje e amanhã. Gerras, submissões, humilhações, perversidade, tudo em nome do poder supremo de ter o pão que Deus nos deu em abundância.
É difícil explicar a fé, mas esse conceito é base para que compreendamos nosso papel no mundo. Deus deu-nos o fruto para que vivamos. Assim como para a viúva, seu filho e Elias, ao perceberem e seguirem os desígnios daquele Deus que lhes falava, não haveria nunca de faltar a farinha e o azeite na botija, pois aquela era a unica forma de Deus concluir seu plano. O mesmo se dá conosco, mas somos cercados de um mundo que acha que a fartura não é suficiente e, portanto, é preciso apoderar-se mesmo que para isso seja preciso roubar a botija da viúva.
Ter fé, portanto, não é somente acreditar em Deus, seguir o homem em seu candeeiro, mas acreditar na botija e, segurando a mão do irmão, convencê-lo de que temos para todos. Elias estava com fome e a viúva tinha somente sua botija. Ele pediu e disse que não faltaria. Ela creu. Eles fartaram-se.
Elias mostrou a ela esse caminho que não mostramos. Lutamos pela nossa saciedade, mas não ensinamos a nós mesmos nem à nossa raça, que a botija sempre se encherá.
Vivemos em um mundo maravilhoso, rico, denso, amoroso, mas que tornamos vulgar. No princípio a Terra era toda tomada pelo farto fruto, desdobrando-se em cantos vivos de almas buscando sua elevação. Tornamo-lo feio, sujo, impiedoso. De um lado a pompa vergonhosa da fartura e de outro a sombria realidade da fome.
De fato, precisamos reconhecer que não podemos celebrar a consciência e fé em um Deus, se não o permitimos em nosso mundo. Permitir a fome é negar em essência a Deus, e isso é uno e indivisível: ou permitimos os corpos a saciarem suas fomes, ou estamos peremptoriamente negando a Deus. Negar isso é reconhecer a incapacidade de ao menos encontrar o homem e seu candeeiro.
Temos progredido nesse reconhecimento. A história humana é uma história bárbara e pouco divina. Até bem pouco tempo atrás, mulheres eram subjugadas, negros eram segregados, e o mundo se dividia por um muro que separava os assassinos do lado de lá dos assassinos do lado de cá. Cada um tinha a sua inequívoca forma de acabar com o mundo. Hoje vivemos em um mundo um pouco melhor, um pouco mais tolerante, um pouco mais perto do homem sentado na cadeira de balanco. Mas a fome, esse desviar do fundamento do plano de Deus, ainda permeia a maior parte da humanidade. O mapa da fome é o mapa da vergonha do homem e de sua incapacidade de arbitrar sobre a própria liberdade voltando-se contra Deus e seu plano.
Precisamos reconhecer isso. Deus nos deu um mundo farto e a fome é criação humana. Reconhecer a centelha que nos foi dada é reconhecermo-nos como parte integrante do próprio Deus e, por isso, seres partícipes desse projeto original. E, como tal, é nossa obrigação reverter a humanidade da fome para a divindade da saciedade e, como Elias, não acreditar somente na botija farta, mas também mostrar à viúva esta realidade.
O primeiro passo para a fé em Deus é a desconstrução da fome. Eis a verdade.
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