Dia 96 – A Preciosidade da Vida

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2 Samuel, 18:5 – E o rei deu ordem a Joabe, a Abisai e a Itai, dizendo: Tratai brandamente, por amor de mim, o mancebo Absalão. E todo o povo ouviu quando o rei deu ordem a todos os chefes acerca de Absalão.

A base elementar da humanidade é a família. Por ela aprendemos a compartilhar o pão, lutar pelos objetivos e, principalmente, compreender a importância da sublevação e tudo em função do amor da união.
Deus nos deu a centelha que nos torna mais do que simples barro e que se sobrepõe ao mundo que nos cerca. Por essa pequena participação na grandiosidade divina dEle passamos a pertencer a um mundo onde encontramos os irmãos de chama. Na família, primeiro meio social de convivência, aprendemos cotidianamente como partilhar dessa chama, comungando os desejos em torno de um objetivo comum. Na família partilhamos as emoções, necessidades, desafios e desavenças que encontramos diariamente nas ruas quando nos dispomos a partilhar com eles a chama que nos torna unos.
Enfim, reconhecer a família é reconhecer a Deus, pois ele nos liga pelos fios de nossas almas. Através dEle, somos capazes de reconhecer no outro aquele eu que desejamos. Somente através da majestade de sua presença inspiradora nos âmagos de cada um o filho percebe, em seu olhar furtivo, a delicadeza de sua relação com a sua mãe.
A família é um microcosmo do universo inteiro. Assim como Deus em sua criação, a mulher gera a vida pela contribuição do pai. Nascemos, nos desenvolvemos e, passo a passo, vamos solidificando as nossas experiências em sabedoria para que tornemo-nos plenos tal qual o guia que nos encaminha. Como na vida, enfrentamos desafios grandes, pequenos, reais, ocultos, mas que nos levam onde nosso desejo, guiado quer pela tentação, quer pela inspiração, decide ir. Assim como na vida, a preservação da família é a preservação da existência da própria espécie pois nela há caminhos que dependem de nossa capacidade de decidir pelo melhor a percorrer. Não há armas, mas desejos ou amores.
David foi certamente um dos reis mais importantes da história da religião judaico-cristã. Ele teve amores, ódios. Acertou e errou. Mas algo nunca fugiu de suas mãos: a conservação da família. Seu único deslize foi com a esposa de Urias, mas arrependeu-se e pagou um preço caro demais. Absalão, seu filho, decidiu que tomaria o reino do pai. Não se preocupou com a unção como havia feito David quando soube que substituiria Saul, mas somente com o poder pelo poder.
Seu pai sabia de suas armas, batalhou contra o filho, mas pediu que se o poupassem na batalha, enfim que nenhum israelense lhe tocasse e que lhe fosse poupada a vida. Independentemente do seu pecado de levantar a espada contra o próprio pai, movido apenas e tão somente por desejos mundanos de poder, mesmo assim David não o condenou e tentou preservar-lhe a vida. Sua ligação com o seu filho, o amor que os unia como partícipes da mesma chama, essa era-lhe razão suficiente para que sua vida fosse poupada, fosse qual fosse seu pecado. Interessante lembrar que David não exigiu que Absalão fosse absolvido, mas que sua vida fosse poupada.
E a vida, essa percepção da comunhão, desse correr junto, lado a lado, essa percepção dos cheiros e de emoções, essa é a transformação da matéria débil em vida na chama de Deus. Quando Deus soprou-nos nas narinas nos ensinou todos esses pequenos momentos mágicos que nos tornam além da própria existência, conscientes, emocionados pelo simples fato de existir. A vida, assim, é a capacidade de manter viva essa chama de Deus no mundo. Poupar a vida, de qualquer um, é poupar no mundo a presença de quem não só compõe mas integra em sua unidade o mundo inteiro. Quando David pediu que se poupasse a vida de Absalão, pediu nas entrelinhas que Deus fosse mantido no mundo para que se perpetuasse. Quaisquer erros são pequenos frente à majestade da centelha de Deus que se aloja no peito de todos os irmãos e, portanto, a decisão sobre viver ou morrer cabe somente àquele que a criou, ou seja, Deus.
Por maiores que sejam os erros, há sempre espaço para o perdão. A emoção dos momentos cegam os olhos, inundam no labirinto das lágrimas a vida toda, mas é preciso compreender a preciosidade da vida. Tirar a vida de alguém é algo que não nos cabe. Somente ao criador é dado o poder de destruir a criatura para dela colher aquilo que lhe participou. A ninguém, absolutamente ninguém, é permitido livremente sorver a alma daqueles que foram agraciados. Mas Deus, em sua infinita sabedoria, também se reserva e não interfere em nosso desejo deliberado de saciarmos em vingança. O homem, desde o princípio, sempre buscou lavar sangue com sangue, deixando sua lógica ser invadida pelos demônios permitidos. Ao fundo, triste, com os olhos mareados, o homem na cadeira de balanço se emociona com a maldade capaz de se instalar no homem que tenta inspirar. Mas ele respeita, e ao homem é dado o direito de retirar o que não lhe pertence nem lhe é facultado. As consequências, por conseguinte, são somente nossas.
Deus dá a vida, e quer-nos santos. Assim como ele, não temos o direito, apesar de termos o poder, de interromper o que ele gerou. Pecados são muitos, multifacetados, esparramados nos quatro cantos da Terra. O perdão, aquela capacidade de compadecer-se, por outro lado, é a expressão da compreensão da presença de Deus na cadeira de balanço. Através da permissão de sua inspiração, tornamo-nos mais próximos do Deus de quem viemos, partilhamos a chama nos momentos de frio.
Somos diferentes, mas somos de uma mesma fonte. Somos iguais pois, no que importa de fato, compartilhamos a mesma essência.
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