Dia 90 – Os Dons

dons

1 Samuel, 30:22-24 – (22) Então todos os malvados e perversos, dentre os homens que tinham ido com Davi, disseram: Visto que não foram conosco, nada lhes daremos do despojo que recobramos, senão a cada um sua mulher e seus filhos, para que os levem e se retirem. (23) Mas Davi disse: Não fareis assim, irmãos meus, com o que nos deu o Senhor, que nos guardou e entregou nas nossas mãos a tropa que vinha contra nós. (24) E quem vos daria ouvidos nisso? pois qual é a parte dos que desceram à batalha, tal será também a parte dos que ficaram com a bagagem; receberão partes.

 

A humanidade é uma grande fraternidade. Juntos construímos e destruímos tudo o que nos cerca. 

 

Deus, na criação,  fez-nos diferentes e cada um ressoa em sua própria frequência e, pela sua existência,  contribui para o mundo. Nenhum é mais importante, nenhum menos, mas cada um tem seu papel segundo a sua capacidade.

 

Um dos grandes problemas da sociedade moderna é a precificação das coisas e dos trabalhos. Na verdade, na concepção original, somos todos engrenagens de uma mesma máquina que deve funcionar, e só funciona em sua totalidade.  Por conta do frontal choque entre essa realidade e a concepção social moderna é que tem ocorrido o esvaziamento da veia espiritual.

 

Quando precificamos a contribuição de cada um,  é natural que tenha-se o ímpeto de alterar seu dom natural para assim aumentar a sua paga. Aquele dom original de Deus fica relegado e a engrenagem não funciona em sua totalidade.  Vivemos uma era de abandono do dom pelo desejo do poder.  Priorizar o poder ao dom é subverter o projeto original.

 

É muito importante deixar claro que não existe nisso pecado mas desvirtuação. Ora vejamos. Deus nos criou e, soprando nas narinas fez-nos parte de si e, como encerra o universo todo, seu sopro nos dota do dom que ele propõe.  Como ser respeitoso deu nos a chance de aceitar ou não o dom e isso nos compete. Deus espera nosso convite a inspirar e, inspirando,  espera que deixemo-nos guiar, conscientes,  pela sua lei expressa na percepção da inspiração.  Ou seja, mesmo inspirados podemos negar o desejo dEle, seguindo nosso caminho. Isso não é confrontar mas decidir e isso é um poder que vem de Deus e nos cabe.

 

Mas o dom é a chance que temos de colorir o mundo que nos cerca. Ele é a cadeira em que cabemos, nele somos plenos. Se o seguimos,  somos a mais perfeita expressão do projeto inicial de Deus para com a centelha partilhada conosco. O dom é um presente divino pelo qual expressamos nossa sacralidade em sua máxima extensão e, portanto, tem o seu valor para garantir que o mundo siga os seus desígnios. Quando nos deixamos levar mais pela precificação do que pela intuição desse dom, o mundo torna-se um universo de vazios que precisam ser preenchidos para que se dê em sua totalidade. 

 
A caoticidade social que experimentamos nesses dias advém justamente desse ponto. Pela precificação, coisificação das pessoas e suas ações, somos levados a um movimento não original da sociedade, culminando em excessos e faltas. Movimentamo-nos para preencher esses espaços. Em verdade, rompemos o projeto original. Mas Deus é supremo, e inspira-nos a ocuparmos os espaços e, ao final, conseguimos manter algo parecido com ele. 
 
Até que ponto podemos dizer que isso é positivo? Difícil dizer. Por um lado, a subversão do dom nos leva a seguirmos outros caminhos e isso nos torna mais sábios pois a sabedoria advém da experiência. Trilhando outros caminhos, aprendemos mais e nos desenvolvemos como ser em busca da complexidade de sua função. Entretanto, para fazermos isso nosso dom natural fica, no mínimo, relegado a um segundo plano onde adormece. É preciso experimentar e colecionar a sabedoria advinda da experiência, mas é preciso, dia após dia, colocar os gravetos na chama que nos define para que sempre sejamos mais. A sabedoria, enfim, será a chave que tornará o dom a posição no lago em que mergulharemos quando retornarmos à origem. 
 
Nesse texto a vila de David havia sido saqueada, e levaram tudo, inclusive os bens, as mulheres e as crianças. Uma parte do exército estava extremamente cansado e ficou na vila, enquanto a outra seguiu para reaver tudo. Foram, conquistaram e retornaram. Ao retornar, disseram a David que iriam devolver a quem ficou somente suas mulheres e crianças, pois os bens seriam dos guerreiros. David, sabiamente, negou e disse que tudo o que pertencia a cada um deveria ser devolvido, pois lhes pertencia antes do saque. 
 
Dessa história depreendemos duas perfeitas lições. Primeiro, a respeito da violência do saque. Quando somos invadidos e nos levam tudo, bens, família, somos despojados em um momento de fraqueza ou ausência, e a violência em si representa uma injustiça. Isso precisa ser reparado. Além dessa lição, o exército que vai reverter a violência tem por objetivo reparar o mal causado e não reafirmar a violência. Seu papel é bem claro de fazer justiça, o que quer dizer, tornar os bens e famílias a quem pertencem. 
 
Sempre que nos deparamos com situações reais existe um pano de fundo de justiça que deve ser mantido. Somos seres completos e, portanto, somos as mulheres e crianças saqueadas, os soldados cansados, e os soldados que vão em busca da justiça. Somos o mosaico que compreende toda a extensão dessa lição, e precisamos compreender essa complexidade que se nos dá. Nos deixamos levar pelas sensações e, principalmente, pela precificação dos dons e, com isso, deixamos de lado nossos outros componentes que nos tornam hábeis para resolvermos e, enfim, mantermos a chama da justiça. Vale lembrar que somos parte de Deus no mundo e, portanto, nossa missão de sermos santos é fazermos a justiça. 
 
David, em sua sabedoria, percebeu que o ataque aos saqueadores foi um ato de bravura mas, antes disso, um ato de restauração da justiça. Assim, os bens, mulheres e crianças deveriam voltar para seus donos iniciais. Não podemos precificar o ato de bravura dando-lhe o direito de reeditar a violência do saque aos donos. Nenhum exercício, enfim, garante-nos o direito de subvertermos as bases da justiça. 
 
Essa visão, em um mundo precificador, é extremamente rejeitada. Hoje os poderes são tais que alguns comem e outros não. Isso é de longe a maior cadeia de injustiças que o homem pôde criar pois baseia o alimente somente àquele que exerce um papel social que o permita ser assim. Como escrevemos anteriormente, Deus deu nos um mundo farto de alimentos para que nele vivamos e nos tornemos melhores e desenvolvidos para, ao final, retornarmos à fonte da criação. Para isso, proveu-nos os dons que, consolidados, têm valor. Assim, nada justifica a fome. 
 
Sejamos os exércitos que buscam a justiça, e busquemos restabelecê-la. Não há porque precificarmos os dons para com isso garantirmos a fartura de uns contra a fome de outros. O mundo é repleto de alimento, e temos comida para todos. Somente precisamos compreender que aqueles que não se atiraram na guerra não o fizeram por estarem exauridos, talvez de uma batalha anterior. O ato de bravura não nos torna maiores, mas exército pela justiça. 
 
David nos ensina, aqui, que antes de mais nada precisamos ser justos e, com a vida, no momento certo, garantirmos que a justiça seja sempre mantida. Cada um exercendo seu papel, seu dom, inspirado por Deus. 
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