Dia 89 – Somos uma Única Família Inspirada

juntos
1 Samuel, 25:32-33 – (32) Ao que Davi disse a Abigail: Bendito seja o Senhor Deus de Israel, que hoje te enviou ao meu encontro! (33) E bendito seja o teu conselho, e bendita sejas tu, que hoje me impediste de derramar sangue, e de vingar-me pela minha própria mão!

 

Deus opera em nós, isso é inegável.  Ele é aquele aperto na garganta, o nó que se dá na emoção,  o desejo insuportável de que o mundo seja justo quer conosco, quer com o outro. Ele é um ser vivo e eternamente presente.

 

Mas ele, respeitoso,  permite-nos operarmos segundo nossos desígnios.  Ele nos inspira segundo a sua lei para que sejamos Ele em essência e façamos do mundo que nos cerca um jardim de suas flores exalando o perfume da sabedoria que aos poucos se consolida em nós.

 

Tenho dEle uma imagem sublime. Vejo ele como um homem simples, de cabelos brancos rasos e que deixa a bolsa dos olhos já idosos mostrar o quanto de sabedoria há por trás daqueles espelhos d’alma. Esta é uma figura simples pois ele se transfigura no que lhe convém,  mas imaginá-lo assim me passa a certeza de que sua sabedoria é soberana sobre mim. Aquele olhar tranquilo fundido a seu cheiro de jasmim me inspiram. E a inspiração é fruto de sua justiça,  o elemento que o une e, unindo-o, faz-nos os laços que definem a corrente de todo o mundo.

 

A existência humana como experiência material da vida é baseada em dois pressupostos: por um lado é preciso viver, e por outro, vivendo, compartilhar da vida. Nossa responsabilidade,  além da carne e sangue, barro e sopro, também se projeta na carne e sangue do mundo,  barro e sopro do mundo.  Somos colocados no mundo como seres individuais, mas somos forçados a termos a intersecção com as almas que nos cercam. A sabedoria,  enfim, é o resultado do exercício de ambos pressupostos.

 

Porque somos responsáveis além de nossas fronteiras?  A resposta foi diversas vezes dita antes,  talvez não com a crueza daqui.  Deus, soprando-nos nas narinas,  gravou em nossa carne o seu estigma e, por ele, tornamo-nos portadores dEle o que, ao final,  congrega o todo. Ele é a supremacia do mundo e encerra em si tudo o que há.  Quando ele nos entrega uma parte de si, o faz para que mergulhemos em seus limites e, assim, concebamos a sua definição primordial.  Em sendo assim, pela centelha e a sabedoria advinda da permissão da inspiração,  conscientizamo-nos de sermos o próprio Deus. E, sendo Deus, somos o mundo todo, inclusive aquilo que extrapola os nossos limites.

 

Isso faz-nos não débeis seres aleatórios jogados no mundo,  mas seres sociais com a responsabilidade de cuidar da espécie. Sim, sim, Deus fez-nos indivíduos para que descubramos sermos o outro e nisso sermos o mundo todo. Através da consciência do pertencimento a Ele mergulhamos na alma do mundo e pela compreensão nos tornamos um só corpo.

 
O ser humano como ser social cria as ferramentas para a preservação da espécie como resultado não só da própria preservação mas também da preservação dos círculos que, aos poucos, vão se ampliando conforme envelhecemos e nos tornamos mais sábios. Para esta preservação criou não só o entendimento mas também as instituições protetoras físicas e morais. 
 
Deus se apresenta como o mosaico que o define: um ser multifacetado cuja inspiração implica não linear ou unicamente, mas abrangente e, por vezes, diametralmente oposto a si mesmo já que o anverso é parte do mesmo todo. Abigail, mulher de Nabal, por diversas vezes humilhada pelo marido, ao saber do tratamento desonroso que este deu a David, interveio pedindo pela sua vida. Naquele momento não preservou somente a ele, mas toda a tribo, e a própria alma de David. O ser humano tem essa veia quando se permite inspirar por Deus, a busca dos caminhos que preserva a própria carne vestida no outro. Davi cedeu a seu conselho não se importando com o comportamento de Nabal e, por isso, foi lhe poupada a vida. Davi, sábio, agradeceu pela intervenção guiada e inspirada de Abigail. Assim como Deus, ela o inspirou pela inspiração de sua própria alma.
 
Infelizmente, os tempos passam, e vamos nos desviando de nossos caminhos. O individualismo e a introspecção decorrente da velocidade das mudanças têm nos tirado essa pérola que nos faz espécie. Pelo desejo incontrolado de pensar em si como único, estamos nos dissociando, acabando com os laços que nos tornam família e perdendo essa essência da dualidade da criação de Deus. O livre arbítrio presenteado por Deus a nós também nos dá o direito de renegarmos a nossa natureza e por essa possibilidade nos distanciamos do que nos une originalmente. 
 
Muitos se vangloriam de seguir estritamente os caminhos de Deus. Muitos se alardam como os verdadeiros herdeiros do povo prometido e que o Reino dos Céus lhe está reservado por sua observância. Mas, enganados, esquecem-se que para conseguir atingir esse nirvana é preciso se deixar inspirar e, por essa inspiração, consolidar a sabedoria que se adquire pela experiência plena de ser humano, em todas as suas imperfeições em busca da sacralidade. Ser herdeiro não é seguir a lei de Deus, mas se permitir inspirar por Ele para naturalmente seguir essa lei. Esses dois pontos parecem o mesmo, mas intimamente sabemos a grande diferença deles. 
 
Mergulha no lago de Deus aqueles que lhe são íntimos. E estes são apenas os que percebem, no meio do caminho, aquele homem quieto no canto do quarto, em sua cadeira de balanço, esperando a hora certa de dizer o que pensa. 
 
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