Dia 88 – Ele, em sua Cadeira de Balanço

cadeira de balanço
 
1 Samuel, 24:9-11 – (9) Então disse Davi a Saul: por que dás ouvidos às palavras dos homens que dizem: Davi procura fazer-te mal? (10) Eis que os teus olhos acabam de ver que o Senhor hoje te pôs em minhas mãos nesta caverna; e alguns disseram que eu te matasse, porém a minha mão te poupou; pois eu disse: Não estenderei a minha mão contra o meu senhor, porque é o ungido do Senhor. (11) Olha, meu pai, vê aqui a orla do teu manto na minha mão, pois cortando-te eu a orla do manto, não te matei. Considera e vê que não há na minha mão nem mal nem transgressão alguma, e que não pequei contra ti, ainda que tu andes à caça da minha vida para ma tirares.

 

A vida é um redemoinho de vias, caminhos que se cruzam, bifurcam-se, fundem-se. A nossa liberdade torna caótica a profusão de desejos e decisões.  Nada é pleno, mas etéreo no balé dos quereres do mundo. Na guerra são dois atores em seus palcos, a vítima que corre no campo minado buscando avançar e, avançando,  manter a batida de seu coração e o atirador por detrás da mira de seu fuzil. Milhares de quilômetros os separavam, mas o labirinto criado da vida os trouxe ali para aquele derradeiro momento. Para um, a vida se descortina pela liberdade da bala que o atravessa e paralisa seu coração e, ao outro, sua vida se torna obscura e vazia pela consciência de fazer o coração do outro parar. Dois destinos. Morte e vida contrapondo-se mutua e diametralmente.   Não há como fugir: somos conectados e nossos destinos se cruzam. Sempre.

 

Destino não é para onde se vai. Destino é para onde nos permitimos ir por aquilo que deliberadamente decidimos. As nossas decisões são solitárias trilhas fincadas por tentações ou inspirações.

 

Tanto uma quanto a outra são divinas. Não há nada no mundo que não seja divino pois o próprio mundo é Deus por nele estar contido. Mas ambas são brinquedos dEle em nosso teatro.

 

Deus nos quer santos e, para tanto, nos inspira intimamente. Calado, ouve em nosso quarto nossas almas espalhando a  identidade, seus cheiros.  Quando permitimos Ele libera sua voz para, inspirando, capitanear a bússola dos caminhos. Nessa liberdade,  quando quieto em sua cadeira de balanço,  permite-nos criar demônios que nos tentem por suas bússolas sem rumo. Tentados, perdemo-nos nos caminhos sem razão de ser.

 

Inexoravelmente, vivos, somos fadados a inspirarmo-nos ou tentarmo-nos sempre.  Não existe outro caminho.  Mas ambos não coexistem pois a inspiração é suprema e expressa a densidade da alma, enquanto a tentação é efêmera transição de medos.

 

A grande importância dessa diferenciação é que, através dela, temos condições de compreender as razões que levaram David a não tirar a vida de Saul.

 

O objeto da tentação é o desejo,  uma sensação que se encerra em si. O corpo e a alma reagem a ele, num ceder que torna sonho em fato. Incrustra na existência a figura e deforma toda a percepção.  Cedendo à tentação, mergulha-se no desejo e, mergulhado,  o objeto perde a razão em si. Tentações nos levam a terrenos murados que tem começo e fim. São finitos e, portanto, decorrem dele a angústia e a desilusão daquele vazio.

 

Na inspiração,  por outro lado, tudo é muito diferente.  A inspiração não cria objetos, mas muda as lentes com as quais observamos os fatos. Enquanto a tentação é divagação,  a inspiração é concreta. Pela inspiração compreendemos a profundidade do que se nos apresenta indo além da lógica e participando do mundo da percepção onde a experiência consolida tudo. Pela inspiração somos jogados nus na floresta das verdades de cujas flores exalam a nossa verdadeira nota. Longe da angústia do vazio e da profunda decepção da tentação,  a inspiração se consolida em amor. Assim, frutos da inspiração,  tornamo-nos amantes e, como tais, agentes de Deus, que é a essência do amor. Amar, enfim, é desejar pelo conhecimento e ver a eternidade daquilo, enquanto que ser tentado e ceder é querer o desejo desconhecido que, atingido, perde função, objetivo.

 

Quando Deus ungiu David não deu-lhe o reino de Israel mas tornou-o apto a suceder a unção de Saul. Assim, para ele, apesar das impiedades de Saul, ele lhe era o ungido a quem seguir. Ali, amando Saul, não se permitiu traí-lo pois o amava, e a tentação,  compreendeu, era efêmera. Naquele momento tornou-se sábio e santo.

 

O desejo somente se dá quando não existe amor, e a traição se instala. Quando, porém,  o amor está consolidado e presente, não há espaço para a tentação pois o amor é a expressão de Deus que, por definição, é a completude e somente coexiste consigo mesmo.

 

Davi, portanto, não traiu Saul pois o amava como pai. Tinha em sua memória,  desnudada pelas lentes da inspiração,  as imagens de sua relação,  dos momentos à mesa brindando a vida, o doce sorriso de sua Mica vendo o brilho nos olhos do pai. Amar é esse extravasar quando se rompe os próprios limites. Enquanto na tentação resumimo-nos a uma muralha finita, na inspiração e no amor o mundo todo, sem limites,  torna-se morada.

 

Deus nos fez assim. Imperfeitos seres débeis carregando a centelha da sabedoria infinita e tentando compreender a profundidade da água rasa. Sentado em sua cadeira de balanço, com as mãos repousadas nos joelhos, Ele observa-nos absorto em seu silêncio, aguardando-nos pedir para dizer-nos algo.

 

Enquanto isso, sorri seu sorriso maroto de pai vendo as traquinagens do filho peralta. Sabe que um dia, depois de muito ceder a tentações,  permitiremos a inspiração e, a partir daquele dia, tudo será diferente.

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