Dia 86 – A Paz

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1 Samuel, 17:45;47 – (45)Davi, porém, lhe respondeu: Tu vens a mim com espada, com lança e com escudo; mas eu venho a ti em nome do Senhor dos exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado. (…)  (47) – e para que toda esta assembléia saiba que o Senhor salva, não com espada, nem com lança; pois do Senhor é a batalha, e ele vos entregará em nossas mãos.

 

As batalhas marcaram definitivamente a história da humanidade. Confrontos sangrentos se deram sempre guiados pela insensatez e desejo do acúmulo de poder até que se obtivesse a supremacia, mesmo que momentânea. De onde vem essa beligerância?  Porque nos damos tanto às batalhas?

 

O ser humano é um ser imperfeito, cheio de vícios e de perversidade,  mas que carrega em si uma centelha de divindade pela qual vive. Com isso, ele tem sua porção animal que luta pela sobrevivência,  mas também a divina que o dota do sentimento de superioridade que se suporta pela inconsistência de sua sabedoria. Conscientes ou não de sua divindade,  entendemos que somos além dos animais e não teria porque não o sermos dentro de nossa espécie.

 

Essa dualidade besta-divino do ser humano é um estigma de todos nós.  Nascemos, crescemos e vivemos dentro da esfera besta, a qual naturalmente busca proteger e alimentar a família com a obra de suas mãos. O amor de besta nos une como espécie,  nos dota da infinitude do pertencimento à família,  descendentes e ascendentes. Aqui somos apenas animais.

 

Mas essa realidade é transformada pela centelha.  Quando fomos criados Deus nos proveu o sopro nas narinas que nos tornou parte dEle. Carregamos a essência do criador e somos parte integrante do ser supremo que comanda, o Rei acima de todos os reis. Através dEle, herdamos não só a vida e o sopro mas o universo inteiro que, ao final nos pertence. Colando a ciência dessa participação na criação ao lado besta, vemos que somos além de nós mesmos, além de nossa família,  nossa tribo e sobre toda a humanidade devemos reinar pois afinal ela é uma ínfima parte do universo todo que nos pertence.

 

Esse choque amalgamante da dualidade humana não acontece comigo ou com você,  mas com todos. Todos queremos dominar ao mesmo tempo, subjugar o outro pela própria sapiência e superioridade,  gerando uma roda sem fim de quereres e poderes.  Talvez Deus tenha pensado no equilíbrio,  e talvez ainda estejamos no curso dele, mas o que vemos, de fato,  são as contraposições resultando em guerras sanguinárias e sem fim,  homem contra homem, irmão contra irmão,  buscando a supremacia da consciência da divindade subjugando o outro.

 

Essa beligerância não ocorre somente entre as tribos, mas entre os seres, cortando na carne a beleza da vida.  Muitas vezes nos dedicamos tanto às guerras que nos esquecemos da parte besta, o amor animal que nos une,  o princípio de nossas caças para apagar a fome de nossas crias.  A guerra, por si, gera o infame princípio de sua necessidade para que,  sob nosso reinado,  atinjamos a paz duradoura.

 

Quando,  então,  a paz reinará de fato? A paz, pelo que vemos em nossas vidas e pela própria história humana, é um interlúdio das guerras. Ela é estabelecida até que os exércitos se recomponham, que as fileiras se ponham e as armas gritem novamente. Em nossas vidas pessoais encontramos desafios diários,  sangramos  o sangue do soldado ferido em batalha pelas traições,  violências, arrebentos morais. Vencemos batalhas e nos preparamos para a próxima,  e chamamos essa preparação de paz.

 

A resposta sobre quando teremos paz é mais fácil que parece. Retomando, Deus é um ser amoroso e respeitoso.  Ele possui toda a sabedoria que se funda em sua existência e tem todo o poder pois tudo remete a ele. Ele é aquele que de fato reina sobre os homens pelo simples fato de ser ele na totalidade a divindade,  não partilhando a besta,  mas a contendo por conter tudo.  Assim,  essa fagulha que imaginamos tornar-nos supremos, é uma ínfima parte da chama dEle. A Ele pertence o reino, o poder e a glória. Lutamos as guerras para dominar as terras já dominadas por Ele.

 

Oras, retomando as nossas leituras, Deus quer nos santos,  ou seja, que realizemos as obras como sendo o próprio Deus, levando a nossa porção divindade a seu extremo e, ao final, consolidando a sabedoria de tal forma que, tentando ser como Ele, sejamos Ele próprio. Também nas guerras precisamos ser o Deus do qual fazemos parte.

 

Então,  como é Deus nas guerras, para que sejamos como Ele? Ele não é.  Em sua infinitude e pleno poder,  Deus não guerreia pois a guerra é a luta pelo poder que nunca deixou de ser dEle. Seu poder é supremo e vai muito, muito além do que terrenamente definimos como seus símbolos e, por conta disso, ele não peleja. Ele possui a consolidada sabedoria que o faz compreender as importâncias,  as almas, os quereres e, através disso, se liberta do guerrear pois ninguém o pode subjugar.

 

Ele, nessa existência além dos quereres, é a fusão plena da dualidade e, o sendo, é a própria paz. Para nós,  portanto, a paz gerada pela sabedoria e consciência da dualidade e, principalmente,  da presença da chama,  é a nossa comunhão com Deus, sendo ele e, obedientes, sendo santos. Nossas pelejas são fundadas em nossa parte divina, mas decorrem de nossa incapacidade de compreender a vastidão de sua profundidade, e que as disputas de poder são infundadas pois, sendo partes de Deus,  a nós pertence o poder total, o qual é fraternalmente dividido entre todos.

 

É inegável o quanto Deus é complexamente simples. Ele encerra em si a imensidão do mundo e, crentes ou não,  fazemos parte de um universo que nos contém e que corre segundo a permissão respeitosa dEle. Ser santo na guerra não é declinar dela, mas compreender a sua real necessidade, assim como o soube David, ungido por Samuel.  Apesar da monstruosidade de Golias que pelejava pela bandeira que acreditava, David não sentiu-se menor pois sabia qual o seu verdadeiro escudo, o que realmente o protegia e onde se daria a verdadeira batalha. Sabia que seu desafio seria Saul. Não Golias.

 
Saul foi um Rei de Israel que, apegado demais a seu ego, imaginou-se acima do bem e do mal, confrontando Deus em seus desígnios. Por conta dessa desobediência, Deus inspirou Samuel a ungir David que, ao seu tempo, se tornou Rei de Israel substituindo a Saul. Ele não era de uma linhagem real, seu pai Jessé era simples, mas assim como todos nós, era filho de Deus e isso o coroou. Ele, diferentemente de Saul, seguia os desígnios de Deus do fundo de seu coração. 
 
As batalhas sempre ocorrerão pois isso faz parte de nosso fundamento humano. Ser humano é criar a ilusão do controle e poder consolidado por ele. Ser humano é subjugar ou ser subjugado. Ser humano é batalhar. Mas precisamos entender que Deus espera de nós mais que a natureza nos permite compreendermos, e sendo santos, sermos Deus em nossas atitudes. Um Deus que, pela conjuração de seu poder universal, percebe que as batalhas são contra nada e, por isso, a paz é a revelação que a sabedoria nos revela. 
 
Não devemos declinar às guerras pela covardia, pois somos movidos por paixões. Devemos, por outro lado, compreender a veracidade  da necessidade da peleja, elevando mais a bandeira da paz que da guerra. Ao final de tudo, mesmo com culturas tão diferentes, histórias tão antagônicas, precedentes tão diversos, somos uma mesma família. Humanos, nos quatro cantos da Terra, são sempre os mesmos. Os mesmos sentimentos, os meus desejos, as mesmas esperanças calcadas na possibilidade de haver sempre algo mais. 
 
Sejamos a nossa própria paz. Que nossos olhos se percam no horizonte vendo o barco se despedindo da orla e mergulhando no universo de sua bravura frente às águas. A paz, mais que um intervalo, que seja ela a permanência de Deus e a sabedoria de sua grandiosidade em todos os dias. 
 
Que aprendamos, tribos e homens, que somos todos pertencentes à mesma fonte e que, desapegando da busca incessante do poder, percebamos que Deus será enfim a confluência de todos nós no mundo pelo qual guerreamos. 
 
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