Dia 85 – De Rituais e Amores

image

1 Samuel, 15:22 – Samuel, porém, disse: Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à voz do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, do que a gordura de carneiros

Deus nos dá liberdade. Ele é amoroso, pois nutre em si um intenso sentimento de pertencimento e poderio. Por outro lado, ele é também respeitoso e nos dota de livre arbítrio para que façamos de nossas vidas o que bem entendermos. Pelos labirintos do mundo que construiu, serpenteamos até chegarmos ao destino que nos cabe, mergulhar fundo no cálice da essência de Deus pela centelha que nos arde no peito.

Com isso, Deus nos provê dois momentos dEle, intercalados por um nosso. A origem, a concepção onde nos é dada a centelha dEle mesmo, e o retorno, quando retornamos à origem do sopro. Entre esses dois extremos, parte ínfima da real existência, partilhamos o mundo que nós dirigimos por nossos amores e egos, criando e destruindo.

Ele não interfere. Quer nos intérpretes de nossas óperas, relegados aos papéis que nos permitimos na encenação da vida. Não quer dominar, mesmo que as rédeas estejam sempre em suas mãos. Quer nos livres para que depreendamos do cotidiano as lições que construam solidamente a muralha de sabedoria que nos permitirá voltarmos a compartilhar a existência consciente de ser Ele em sua totalidade. Não existe destino pré concebido, mas apenas a linha de chegada que cruzaremos em algum momento. Nossos caminhos, trilhas, atalhos e penhascos, tudo isso é definido por nós mesmos.

O que Deus, então, espera de fato de nós? Sendo imperfeitos, tendo somente a partida e a chegada, como podemos ser os santos que ele espera de nós, provendo o que lhe falta, se ele é de fato a integridade do universo?

Em um determinado momento dissemos sobre o conflito da fé com a descrença. A descrença é baseada na desconstrução de um conceito que não se sustenta como factual pois encerra em si uma não materialidade. Assim é fato que Deus não existe. Aos crentes, homens de fé, no entanto, Deus não é um conceito mas uma percepção e, imaterial por definição, sustenta a existência de Deus como fato inconteste pois dele depreendemos a nossa própria existência material.

Carregamos em nossos corações uma centelha que provê dEle, quer os descrentes acreditem ou não. A nós, crentes, não cabe a prova material de Deus, mas a compreensão em nosso âmago de sua certeza. Isso quer dizer, em última instância, que Deus nos quer parcelas sua, fazendo como Ele mesmo faria. Caminhar os caminhos distantes, entre os dois pontos, como Deus andaria, pois somos Ele em última análise.

Houve um tempo em que Deus pedia holocaustos, pois através deles compunha a sabedoria da sacralidade ritualística que o homem percebia. Por aqueles rituais o homem sentia que havia uma sacralidade que o aproximava do Deus que o mantinha. Desde aquele tempo, houve um desenvolvimento no pensamento humano, passando pelas gerações, até que o cordeiro de Deus foi imolado, extinguindo a necessidade, pois a centelha se tornou perceptiva, muito além do ritual proposto. Mas, independentemente dos rituais, Deus nos quer presentes em seu conhecimento, em sua sabedoria, e não nos rituais. Eles são formas de expressarmos. Deus nos quer obedientes à suas leis que, ao final, são as nossas próprias por sermos partes do criador. Este é o preço que ele pede,  não cobra.

Sim, sim. O Deus de fato é um ser amoroso e respeitoso e, como tal, não cobra mas pede. A resposta,  positiva ou negativa, quem a dá somos nós pela nossa avaliação da correção do dar de si. Os rituais são vasos que são cheios de nossas essências e de nosso querer completar a infinitude de Deus conforme nossas aceitações.  Deus não impõe,  mas pede pela inspiração que nos propicia. As religiões,  presença ritualística, são como as línguas. Elas divergem pelo alfabeto,  palavras, gramáticas,  influências culturais ou históricas,  mas ao final se correlacionam pois exprimem a comunicação entre os seres que são os mesmos em qualquer cenário ou canto do mundo. Em suma, podemos expressar-nos de maneiras diferentes,  com regras/rituais diferentes,  mas somos todos o mesmo homem dizendo as mesmas palavras de formas diversas.

A grande lição que fica é que Deus não nos quer rituais se tais não forem expressão de nossa cultura aderida a seus preceitos.  Ele não nos dá nenhuma missão impossível,  mas apenas a prática do amor como ferramenta de santificação para que caminhemos na direção que Ele mesmo, parte maior ainda a descobrir de nós mesmos, percorreria sendo a própria lei.

Anúncios

Um comentário sobre “Dia 85 – De Rituais e Amores

  1. É impressionante como Deus tem paciência com a gente,e mesmo assim a gente falha tanto,ainda bem que Ele na sua infinita misericórdia nos perdoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s