Dia 84 – Reconstruindo as Muralhas

muros

1 Samuel, 13:19-21 – (19) Ora, em toda a terra de Israel não se achava um só ferreiro; porque os filisteus tinham dito: Não façam os hebreus para si nem espada nem lança. (20) Pelo que todos os israelitas tinham que descer aos filisteus para afiar cada um a sua relha, a sua enxada, o seu machado e o seu sacho. (21) – Tinham porém limas para os sachos, para as enxadas, para as forquilhas e para os machados, e para consertar as aguilhadas.

 

As batalhas sempre são muitas. Nossos inimigos, diversos. Eles estão por toda parte, e nos subjugam por sua superioridade de força ou inteligência. Mas elas, as batalhas, não são fenômenos estanques pois não se resumem em si mesmas. Elas são um processo pelo qual a nossa liberdade é cerceada e se subjuga à força do outro. Deus está em toda parte, inclusive na arma daquele que nos escraviza.

 

Das batalhas, resta a vitória ou derrota, ambas remetendo à percepção da própria existência. Não perdemos nem vencemos sempre, mas após elas há sempre um período de domínio.  E, tal como a própria vida, o domínio e a escravidão precisam ser exercidas com a sabedoria. A sabedoria é uma estrada longa onde invariavelmente caminhamos, conscientes ou não.

 

Na batalha temos as nossas linhas de frente, nossos exércitos e nossas armas. Na guerra deixamos de produzir e, vencidos,  somos arrasados.  Dominados, precisamos nos reconstruir para voltarmos a ser aquele povo de antes do enfrentamento.  Dominados, cabe ao outro manter-nos no nível inferior de derrotados para que lá fiquemos, servindo-os eternamente.

 

Tal como filisteus,  os nossos dominantes não nos permitem reconstruirmos nossas muralhas, e nossas ferramentas somente são afiadas se nos humilhamos a eles.

 

Vencidos, humilhados, dominados.  Em toda guerra há vencedores e vencidos. Nós ou o outro. Não importa quem já que o ciclo sempre se dá da mesma forma. Intensidades diversas, mas pano de fundo constante.

 

De onde vem, então,  a força que nos leva a reconstruírmo-nos? Totalmente derrotados,  mas nunca dizimados, em um determinado momento percebemos que existe apenas um caminho, para fora daquela cena sufocante.  A vida,  centelha pertencente a Deus, é fagulha da chama e, por pior que seja a dor, jamais se extingue e persiste eterna em sua dualidade humana e divina e por ela nasce a força capaz de carregar as pedras, assentá-las e reconstruir as muralhas.

 

A vida é o cântaro onde Deus derrama a sua essência e nela opera para que o pensado definitivo trasmute-se em transitório, vertendo a própria existência. Por ela cadenciando os pensamentos para que se elevem e retomem os domínios de suas terras. As vitórias,  assim como as derrotas e a sensação de perda, são transitórias e seus ciclos são determinados por nossa capacidade reativa.

 

Nem sempre é fácil reagir. As forças se extinguem como que por si só,  os músculos estirados pendem nos ossos, cansados, exaustos. Muitas vezes pensamos até que a dádiva da centelha eterna é um peso e não um presente divino. Num instante porém,  o verde duma folha ou uma paineira frondosa nos faz perceber que o corpo é apenas um invólucro e aquela voz constante não é loucura mas o doce cantar do verdadeiro hospedeiro.

 

Sempre há saída.  Nenhuma batalha é suprema.  A chama é eterna. O que nos dista das reconstruções não é a nossa incapacidade,  nossas pernas cortadas, nossos músculos exaustos, mas a nossa inaptidão a perceber que a voz não é loucura mas inspiração a descobrirmos os atalhos para onde levar as pesadas pedras da muralha a reconstruir. 

 

Deus não nos poupa das batalhas. Somos expostos,  débeis,  às guerras sangrentas onde somos mutilados. Nossas almas são dilaceradas e as dores chegam a seus extremos, e Deus nos observa entendendo que aquilo nos é escola. Ele, por sua compaixão e misericórdia,  nos provê a palavra certa no momento certo, o aquecer no coração para o amor próprio que percebe as debilidades decorrentes da batalha travada para que se refaça novamente no ser escolhido para aquela guerra. Ele, em sua sabedoria,  faz-nos fortes na medida exata para aprendermos tanto na derrota quanto na vitória e tornar-nos conscientes de nossa força maior.

 

Engana-se quem acha que somente quem é dominado é dilacerado. A batalha é uma violência desmedida e, como tal, não escolhe lado. Ganhando ou perdendo,  elas tiram pedaços de nós.  Pela perda descobrimos nossos limites e tornamo-nos maiores que antes, alcançando a redenção pela lágrima e pela consciência da voz.

 

Lutamos pelos conflitos dos arbítrios.  Perdemos ou ganhamos pelo nível de nossa sabedoria. Renascemos das cinzas e regeneramos nossas peles pela inspiração da voz que nos acalenta e extende a mão para levantar-nos.

 

Ele está lá em todos os momentos. Antes do enfrentamento,  na batalha e nas dores decorrentes.  Mas viciados,  somente damo-nos conta de sua força quando estamos dilacerados.  A sabedoria, essa muralha que se constrói com o tempo, em seu momento certo, doma nossa alma para que percebamos que a batalha é um embate de egos e não de verdades e, mais uma vez no momento certo, aprendemos a ouvir a voz para desviar-nos delas.

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