Dia 81 – O Ciclo das Dunas de Areia

duna de areia

1 Samuel, 2:2 – Ninguém há santo como o Senhor; não há outro fora de ti; não há rocha como a nosso Deus.

1 Samuel, 2:9 – Ele guardará os pés dos seus santos, porém os ímpios ficarão mudos nas trevas, porque o homem não prevalecerá pela força.
1 Samuel, 2:25 – Se um homem pecar contra outro, Deus o julgará; mas se um homem pecar contra o Senhor, quem intercederá por ele? Todavia eles não ouviram a voz de seu pai, porque o Senhor os queria destruir.
 
 
Ele é mais que presente. Ele supera o conceito pois ele pressupõe a existência e, portanto, é anterior. Como ser criador, a ele não se aplica o conceito, pois nele se contém o todo, todos os lugares. Assim, Deus não está presente, mas contém. 
 
É difícil imaginar essa porção de Deus que nos cerca. Nós mesmos, dentro dessa lógica, somos a parte integrante de Deus. A consciência da existência é a base da fé, pois, conscientes, acreditamos na nossa existência que, em última instância, é a existência do próprio Deus. 
 
Quando tornamo-nos santos, como dissemos antes, tornamo-nos mais próximos da excelsa magnitude do Pai. Ele é a perfeição que descreve e contém o mundo, e tornar-se santo é tornar-se tal qual Ele. Quer as guias de nossos arbítrios permitam ou não, estamos contidos em sua perfeição e a existência dEle se torna irrefutável. 
 
Ele nos fala aos ouvidos rompendo a lógica que o define, pois a ele pertencemos sempre, independente de nosso desejo desse pertencimento. Mas ele nos provê a escola da vida para que aprendamos os limites de sua existência, proporcionando-lhe a experiência da imperfeição que somos nós. Esse rompimento consciente da lógica o torna mágico pois faz nascer em nossas almas o desejo da consolidação de uma sabedoria que nos diga mais que os pequenos punhados de moedas que colhemos na vida.  Ele supera-se sendo humano, ele supera-se deixando-se guiar por aquilo que se opõe a ele. Ele, enfim, diverte-se com os dados jogados do destino. Deixando-o em nossas mãos, somente dá o suporte para que não despenquemos nos abismos, mas deixa-nos experimentarmos para da experiência percebemos a profundidade de nossa própria alma. 
 
Nesse jogo nos mostra que sua presença é mais que constante, é anterior e, portanto, salvaguarda a essência do sopro que carregamos. A carne, o barro, ela não é importante pois é apenas o templo para a centelha, e cabe-nos preservar para que a sabedoria se aprofunde ao máximo, extraindo da fraternidade os tijolos para as calçadas. Somos Ele e o carregamos em nossa transitória matéria, para que Ele se torne não maior, já que é infinito, mas mais profundo e denso na medida de suas próprias águas. 
 
As histórias da Bíblia são um contínuo de um mesmo ciclo. Aquele que foi eleito em gerações se degrada, e Deus o substitui por um cujo coração naturalmente se deixa inspirar pela voz. Samuel, filho dedicado por Ana a Deus, também foi assim. Ele substitui Eli e seus filhos maldosos no sacerdócio e por ele é revelada a verdade que jamais se encobertou. A perversidade cíclica do homem mostra a sua ingênua arrogância para tratar do Deus que inspira dentro e, de tempos em tempos, é preciso que algo se suceda para que percebamos que o grão de areia aceito hoje pode acumular uma duna inteira em uma vida. Deus permite pouco pois ele é misericordioso e compadece-se dos filhos, mas somos por natureza acumuladores de grãos que, juntos, sobrepõem os olhos e cegam para o além da duna. Seu vento forte vem e desfaz a montanha insólita de pequenos grãos de areia, para que o chão se converta novamente no suporte aos nossos pés. 
 
Muitas vezes pedimos a Deus a bonança do vento que cesse. Imaginamos em nossa ingênua percepção que sem ele seremos mais felizes, cabelos calmos e respiração fácil. Sim, sim, respirar e manter os cabelos com vento é difícil, mas com ele não acumulamos os grãos de areias de nossos pecados e, assim,  não se forma a duna que nos cega do horizonte e não permite-nos os pés no chão de fato, e mantemo-nos sacros como sacros fomos criados. Deus está sempre presente, como dissemos, ventando ou não. A nós, em nossas preces, aprendemos aos poucos a compreender a força de nossos desejos, quer pelo pedido da cessão do vento, ou do agradecimento de sua existência. 
 
Deus jamais fará mal a seus filhos. Suas centelhas serão preservadas sempre, e o invólucro de carne e barro são a responsabilidade para que se perpetue na sacralidade de templo de Deus. Duas mãos se entrelaçam quando ambos dedos se permitem coexistirem e, da mesma forma, a responsabilidade dual entre Deus e homens, Pai e filhos, se dá pelo compartilhamento da carne e sangue, barro e sopro. Deus dá-nos na medida de sua compaixão e percepção do desejo de fato, quer estejamos agradecendo os ventos, quer peçamos para que ele desapareça. 
 
Consolidado na sabedoria de sua presença pela consciência de nossa existência, precisamos entender que os grãos sempre existirão. Podemos varrê-los com o vento perturbador dEle, podemos acumulá-los em nossas dunas, ou podemos querer os dois, conforme as dores de nossos corações. Independente disso, precisamos saber dos grãos… 
 
Sim, grãos de nossos pecados, de nossa não-sacralidade momentânea ou eterna, de nossa negação a nossa essência. Deus os conhece pois, contendo o mundo, também os contém. Estamos aqui não para não tê-los, mas para depreendermos deles a experiência para tornarmo-nos melhores que antes. 
 
Esse é o ciclo dos grãos de areia que, mais dia menos dia, serão varridos pelos ventos de Deus.
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