Dia 80 – Brincando de Deus

maos dadas
 
Rute, 1:16 – … Não me instes a que te abandone e deixe de seguir-te. Porque aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo será o meu povo, o teu Deus será o meu Deus.

 

O amor é mais que uma sensação, ela é um elo eterno que une as pessoas dentro delas mesmas. Um desejo incontrolável de pertencer e de conter. Pertencer a alguém exterior a nós e, simultaneamente, conter o outro dentro de nós mesmos. 

 
Ele, o amor, é a solidez da sua própria efemeridade. A natureza humana é um labirinto de emoções que colorem a vida, serpenteando pelas dádivas de Deus no mundo. Deus criou o mundo para que nele habitemos, nos conheçamos e principalmente nos amemos. Ser esses seres que originalmente débeis se tornam sábios é o que nos faz pertencentes ao mundo, e ser seres que amam nos talham para sermos o Deus presente. 
 
O amor tem essa vertente da consideração além do natural. Por ele nos propomos a vencer as barreiras naturais da prática caótica do arbítrio, e essa disposição é a força motriz para que vençamos os desafios. Esse aprendizado que a vida nos proporciona suga muito de nossas forças, nossas almas se transformam e no mais das vezes sangram pelo sofrimento, mas o amor sela as chacras e faz com que percebamos o quanto vale a pena. Amor é essa magia que nos torna mais conscientes da proximidade do cheiro do outro. Amor é esse desapegar de seu destino, calcando as pedras do caminho rumo ao retorno à fonte de mãos dadas a quem nos torna realmente um.  
 
Ele não aceita a exigência do abandono. Abandonar é relegar a segundo plano, e o amor é o único plano possível. Amar é conjugar, comungar, e unir-se fazendo com que seu caminho, sua pousada, seu povo e seu Deus sejam todos um só, um pertencimento único.  As mãos dadas no caminho, o roçar leve das peles movidas pelo andar, o suor suave daquela união torna ponte entre as almas, buscando o mesmo fim. Amar é carregar-se mutuamente na caminhada, suportar a mão quando a pedra machuca o pé, guiar quando os olhos perdem o pastor com seu candeeiro, alimentar a boca cansada da caminhada. Mas também é rir feliz das descobertas, amando os momentos que jamais tornarão mas que se fixam às lembranças que não se esvairão. 
 
Nele há desafios. Nele existem distorções, medos e incertezas. Elas enuviam as percepções, mas como as vozes dos demônios, apenas são fortes se as permitirmos importantes. A beleza sobrenatural da consciência da condição amada é uma inspiração que arranca um sorriso feliz da face de Deus por ver-se pertencendo àqueles momentos. Deus é esse amor, e amar quem também nos ama é comungar com Deus na intimidade dual do casal que se descobre. Ele está ali, presente, vivendo feliz como a chama que jamais se apaga. Deus é o amor que une, aquele que repele a necessidade de palavras, que torna os rituais fúteis. Ele é o amor que delicadamente aperta a mão no caminhar, e que vela o sono do outro. Atrás dos olhos zelosos, deixa passar o filme de uma vida toda. 
 
A felicidade não é a ausência da dor, mas a certeza do poder de vencê-las. Para que se tenha essa certeza, é preciso amar. Amar é doar-se a si mesmo, pois o outro é o anverso de você e te reflete na sua essência. Dual, verso e anverso, descobre-se poderosamente forte para suportar e superar as dores como o próprio Deus nos quer. Pelo amor, pela dedicação ao caminho que se segue, sacraliza-se a vida como Deus sempre nos pediu. 
 
O segredo escondido é a ausência de segredos. Fomos criados por Deus, do barro e do sopro, para amarmo-nos profundamente. Somos todos partes de uma mesma chama, carregando centelhas no peito que dizem de nossa origem. As almas são bailarinos que se descobrem na música, dançando na certeza do pertencimento. Encontrarmo-nos e enlaçarmo-nos é o passo para a eternidade já que vivemos a coesão das chamas, um ensaio do Reino que nos espera. 
 
Nele seremos todos um só corpo, uma só alma. Ali, os cheiros se fundirão no único incenso que cobrirá o mundo. As mãos de entrelaçadas se tornarão uma única, forte e poderosa, abrangendo e abraçando o mundo todo. As centelhas apartadas se fundirão na chama eterna do Deus que, afinal, somos todos nós. Amar, portanto, é experimentar esse nirvana, saborear o pertencimento da alma,  dos cheiros, das mãos, da chama. Enfim, é replicar o Deus que nos criou e que nos chama para participarmos de sua vivência, de seu ser. 
 
O amor é a fusão das almas que cria um ser de dois lados perfeitos, congruentes e independentes. A partir deles nos tornamos mais que nós mesmos. Somos o terceiro pela mistura de cada um. 
 
Amor é assim, perfeita junção das almas em um elo inquebrantável. Sua força, seu apelo à Deus para replicá-lo no mundo é tão forte, que por ele surge a vida, uma nova vida gerada por sua confluência. 
 
Sim, sim… Deus é inexplicavelmente hábil nos caminhos de sua criação. Criou-nos solitários para descobrirmos nosso complemento. Unindo-nos aos seres que nos completam, criamos o reino para o qual nos dirigimos. Somos, juntos, o Deus que louvamos. Sendo Deus, carregando sua semente, somos Ele também na criação e criamos a vida, como Ele nos criou. 
 
Um mosaico. Uma paleta de cores. Um mundo de amores. Eis quem somos.
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