Dia 79 – O Vaso

vaso

Juízes, 21:24 – Nesse mesmo tempo os filhos de Israel partiram dali, cada um para a sua tribo e para a sua família; assim voltaram cada um para a sua herança.
 
Todo preceito religioso se baseia em circunstâncias nas quais desenhamos os nossos destinos a partir de nossas decisões, e por elas vivemos. A vivência, compartilhamento de experiência com quem nos cerca, é a sacralidade da família que nos suporta. Muitas vezes no partilhamento de sangue, outras pela própria circunstância, mas sempre conjurando para que se descreva o futuro como a percepção e decisão do agora, balizado nas experiências comungadas por aquela comunidade. 
 
A experiência familiar é a superação da solidão de cada um, partilhando a experiência dos momentos. O amor se constrói, assim, pela vitória à solidão natural. A família são as vozes de fora que inspiram a voz de dentro a, instigada pela inspiração comungada na voz de Deus, exercer seus dons buscando o conforto da alma. Não existe segredo nem receita para a convivência, apenas o desejo comum de que aquela comunhão seja positiva e resulte no conforto de palavras, ações, desejos. 
 
Não é simples. Muitas vezes nos deparamos com profundas incongruências que nos levam distante das pessoas. A proximidade muitas vezes erroneamente leva o outro a acreditar em direitos inalienáveis sobre o nosso próprio arbítrio, tentando julgar e impor suas vontades, mas essas situações também são parte do exercício de viver. Os erros das pessoas, assim como os nossos próprios, são naturais pois não somos dotados de sabedoria, mas de desejos e parcas compreensões do que nos cerca. O erro, inconteste natureza humana, surge pelo exercício desse arbítrio acéfalo aliado à arrogância de quem quase compreende, quase sabe. 
 
O ser humano é um pote vazio que, ao longo da vida, vai se enchendo dos néctares das vivências partilhadas. Não existe solidão total, pois ela somente se daria se em nossos âmagos houvesse uma única voz. A de Deus também está lá, confortando e, principalmente, inspirando para que os potes se encham e se consolidem na sabedoria que nos trará de volta à fonte do sopro. Os erros são as águas desperdiçadas e que caem fora da boca. Elas alagam o chão, inerte e sem destino, mas que não cumpriu sua sina de encher o pote. Aceitar o erro próprio é recolher aquela água esparramada em toda a complexidade de sua deformação líquida, e depositá-la de volta dentro do pote. Jamais será integral, pois parte será absorvida pela superfície porosa, mas o cansaço dos braços enxugando o chão e carregando o balde nos ensinam que devemos nos acautelar com a dádiva que Deus nos deu, nossas vidas. Ninguém vive sem derramar seus cântaros fora, assim como ninguém nunca derrama somente dentro. Somos os seres que, com o tempo, aprendem como verter, sem pressa, os néctares nos potes e disso depreende a maravilha de viver. 
 
A experiência em família é justamente o compartilhamento dos potes. Não há nada de especial em encher seu pote sem perceber o que acontece ao lado, assim como não há nenhuma vantagem em alertar pelo verter errado do irmão. Humano, no sentido sacro de filho de Deus e carreador da centelha estigmatizada na alma, é descermos de nossos parapeitos para ajudarmos àqueles que nos cercam a secar seus chãos, carregar seus cântaros e assim devolver o líquido ao líquido, de quem quer que seja. Essa experiência partilhada une as centelhas que são da mesma fonte e se tornam uma única. A família é essa conjunção de carne e sangue, barro e sopro que, juntos, constroem a própria sabedoria calcada nos chãos sendo secos. 
 
Partir e retornar à sua tribo, à sua família, à sua herança. Eis o ciclo que torna-nos humanos. Nossas experiências nos desenham como vestes leves que cobrem lenta e perfeitamente cada detalhe dos corpos a que se moldam. Elas nos tornam além dos limites de nossas peles passeando pelos olhos a sensação de pertencimento à si mesmo e, portanto, sempre haverá para onde voltar. Sempre haverão irmãos ajoelhados, panos nas mãos, recolhendo seus líquidos e com os olhos cheios de lágrimas desesperados pelo conforto humano da compreensão fraternal. Isso vai muito além dos laços de sangue, prende-se aos laços de almas que se encontram e tornam-se unidade. Retornar é tornar novamente a ser o que éramos no princípio, fagulhas de um universo inteiro. 
 
Retornamos para consolidarmos a sabedoria do caminho de volta. Somos assim, mosaicos imperfeitos, escravos de nossas sinas, vertendo nossos néctares nos vasos. Acertamos, erramos, aprendemos. Mas principalmente, vencemos nossas defesas e egoísmos, e ajudamos os irmãos em alma a recolherem seus derrames e, juntos a eles, tornamo-nos melhores que antes. 
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