Dia 77 – Os Dons

sansão e dalila

Juízes, 16:21-23 – (21) Então os filisteus pegaram nele, arrancaram-lhe os olhos e, tendo-o levado a Gaza, amarraram-no com duas cadeias de bronze; e girava moinho no cárcere. (22) Todavia o cabelo da sua cabeça, logo que foi rapado, começou a crescer de novo: (23) Então os chefes dos filisteus se ajuntaram para oferecer um grande sacrifício ao seu deus Dagom, e para se regozijar; pois diziam: Nosso deus nos entregou nas mãos a Sansão, nosso inimigo.

 

Sansão foi uma figura conhecida por sua força.  Ele foi capaz de todos os prodígios, por ela sobreviveu e era capaz de derrotar qualquer um. Ele era odiado pelos filisteus que queriam-no morto. Dalila, sua segunda esposa, vendeu seu segredo por algumas moedas.

 

A força que Deus lhe reservava era fruto de seu corpo, mas Deus havia criado a magia de seus cabelos, para que se tornasse responsável por sua dádiva natural. Pelo conhecimento dessa suscetibilidade ele deveria garantir que seria sempre o mesmo, por todo o sempre, evitando que seu povo fosse subjugado.

 

Mas Dalila intimidou-o pedindo o segredo por prova de amor. Duas vezes ele a ludibriou, e nas duas o traiu.  Pelas lentes de seu amor não se deu conta da traição e retornou ao erro finalmente contando sobre seus cabelos. Ela lhe raspou os pelos e ele foi preso para ser morto em holocausto ao deus pagão dos filisteus. Em troca, algumas moedas.

 

O mundo é repleto de incongruências e por elas o traçado do caminho é feito, descrevendo as histórias e suas variantes.  A traição de Dalila foi o erro derradeiro não dela, mas dele por não perceber e por isso colocar em risco o dom que lhe foi entregue pelo Pai.  Amar é sobrepor-se a si mesmo, mas não nos livra do dever do dom de Deus e Sansão imaginou-se imune às forças do mundo. 

 

Deus estabelece as regras do jogo, as forças que definem o mundo e como se dão em cada cenário.  Mas os movimentos, eles são dados por nós jogadores que vamos compreendendo as regras do jogo conforme ele se desenrola. Deus não havia estabelecido que Sansão se casaria e se encantaria por Dalila,  nem mesmo que ela o trairia,  mas ambos decidiram esse seu futuro,  com Sansão traindo, pela traição de Dalila, a Deus que lhe dera seu Dom.

 

Essa força inexorável entre os três,  Sansão,  Dalila e o Dom é que define a história.  Pela traição em cadeia,  vendeu-se – a primeira pelas moedas e o segundo pelo encanto – e ao final, todo o povo sofreu. Deus dá-nos, simultaneamente,  o dom e a compreensão da sua vulnerabilidade, para que dele façamos o melhor. Deus nos quer perfeitos na fusão entre nossas consciências e nossos dons e, na sabedoria, resguardar a vulnerabilidade para que seja eterna.

 

O maior de todos os dons é a própria vida. Somos abençoados por ela e sabemos da sua vulnerabilidade.  Sólida e ao mesmo tempo frágil, ela é o dom supremo que a divindade nos reserva para todo o sempre. E, como invólucro, nos apresenta o sopro que é o próprio Deus. 

 
A história de Sansão tem várias vertentes e por ela podemos enxergar muito de nossas próprias vidas. Primeiro, o amor ao outro é um amor que precisa ser consciente e positivo. O fato de você amar alguém não o torna além de qualquer outro, mas sim alguém que conta com você para vencer as vozes dentro de si mesmo. A cadeia do amor é o que nos torna uma irmandade que se suporta para que consigamos, juntos, atravessarmos os caminhos e as pedras que machucam os pés. Suas vozes são importantes como a nossa própria, mas a voz inspiradora deve ser sempre a doce e suave de Deus mostrando-nos o nosso próprio caminho. Amar não é possuir, mas partilhar. Dalila possuiu inteiramente Sansão, e ele se subjugou a ela. Ela não fez o mal, mas inspirou-se pelas vozes erradas e, não tendo ainda a sabedoria consolidada, errou na percepção do que Deus esperava dela.
 
Por outro lado, o dom é uma responsabilidade acima de qualquer outra. Todos nós possuímos dons, que vão desde a escrita até a própria existência. As artes são parte, mas não a completude, pois todos juntos somos o mundo que nos suporta. Esses dons são repletos de magia, e Deus espera de nós que os exercitemos como prática de vida, e que saibamos preservar o segredo que os tornam únicos. E, como dom supremo, a própria vida também é assim. 
 
Finalmente, uma última importante mensagem da história, é que o cabelo foi cortado, mas ele renasceu, e suas pequenas penugens foram suficientes para que ele derrubasse as colunas do átrio, vingando aqueles que cegaram seus olhos. Por mais que sejamos injustos, traidores e desumanos com nossos dons, Deus é um ser misericordioso e compadece-se de nós. Quando nos distraímos de nossos caminhos e perdemos os bens que ele depositou em nossas mãos, ele dá-nos a chance de, quando realmente arrependidos, usarmos o dom com o qual nos presenteou. Ele está presente na criação da regra do jogo, e deixa-nos perceber a sua divindade como dádiva, quer pela misericórdia, quer pela compaixão. 
 
As histórias são assim, labirintos de divagações que desnudam a verdade que conhecemos. Elas não nos trazem novas verdades, mas novas formas de enxergarmos as verdades. Não somos fortes como Sansão, nem cercados por aqueles que nos venderiam, pois esses foram outros tempos. Mas, sim, somos susceptíveis a desnudarmos nossas vulnerabilidades em função de uma sedução ou um punhado de moedas, e essa traição é contra Deus. Nossos dons são meios para que sejamos mais que simples seres humanos, para que sejamos partes de Deus que nos fez vivos e conscientes. 
 
Ouvir a voz Dele e deixar que os dons se expressem é uma missão diária que não podemos esquecer. Por mais que nos curvemos aos problemas do cotidiano, as agruras da vida, por mais que tenhamos as nossas cabeças raspadas e percamos nossas forças, Deus proverá a reconstituição e os cabelos nascerão novamente. Aos poucos, nossos dons e forças reaparecerão e seremos fortes para conquistarmos nossos cumes. 
 
O trabalho é lento, eterno, mas presenteado com a reconstituição do elo perdido. Essa é a Terra Prometida por Deus, e o cantar que nos sopra aos ouvidos a todo instante. 
 

 

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