Dia 76 – Olhos no Espelho

ohos

 

Juízes, 11:23-24 – (23) Assim o Senhor Deus de Israel desapossou os amorreus de diante do seu povo de Israel; e possuirias tu esse território? (24) Não possuirias tu o território daquele que Quemós, teu deus, desapossasse de diante de ti? assim possuiremos nós o território de todos quantos o Senhor nosso Deus desapossar de diante de nós.
 
O dia começa e você se apercebe da pessoa que te olha, insistentemente, no espelho. Aquele rosto conhecido, aqueles lábios delicados desenhados à mão, são uma ponte que liga você a todo o seu passado. Cada emoção vivida, cada momento de desespero, de esperança e de felicidade plena estão ali encravadas nas ondas indeléveis das rugas que não escondem os dias eternos que se passaram desde o primeiro momento. 
 
O reconhecimento vai aos poucos se apoderando, tornando real aquela história que poderia muito bem ser apenas um delírio de sua mente imaginativa. As pessoas e a colagem de suas histórias à daquele ser irmão no espelho são os marcos de tudo o que foi e de como tudo à frente será. Depois do conhecimento coletado pela vida toda, você se dá conta da unicidade de sua existência e da consciência do sentido que faz tudo aquilo. O que você analisa dos outros como ente externo cabe-lhe analisar como ser único interno e diretor dos rumos do destino daquele ser que te fita, insistentemente. 
 
Não há, afinal, como fugir daquele destino. Somos quem somos e, atados, buscamos o desprendimento para fundir-nos aos seres externos àqueles olhos do outro lado do espelho. Plano, refletivo, emite a imagem que se aprofunda na resiliência daquela alma em diuturnamente desbravar o que lhe é reservado nos dias que se seguem.
 
Mas de onde vem essa existência? Como os milhões de fenômenos químicos se desenrolam, sistemática e sinergicamente, fluindo de todos os cantos para todos os cantos, resultando numa entidade que, depois de tudo, retesou a fronte e mirou aqueles olhos conhecidos convidando-o a desbravar as matas por ele mesmo construídas? A pureza dos contornos de seu rosto, os fios maravilhosamente distribuídos do agora ralo cabelo demonstra os limites dele com o mundo. Os ombros redondos, como que esculpidos, alongando o corpo que domina sua mente. Ser você mesmo é uma mágica que se sobrepõe a qualquer milagre. O milagre da vida é o milagre de fundo para toda a humanidade. 
 
Deleitando-se com seus pensamentos você é invadido pelas fotografias da vida, te levando ao primeiro beijo, o primeiro filho, e você percebe que aquele momento mágico de sua existência também ocorrerá um dia com aquele menino bobo que se diverte na sala, e que ele compreenderá que ele não é mais um, mas o único de sua própria existência. Seus olhos, ainda fixos, agora tornam-se brilhantes e desejosos, inundados pelas águas das lágrimas da emoção que toma conta de sua alma. Sim, assim como você, aquele ser maravilhoso que carrega em si uma parte sua, uma parte dela, uma parte do amor que os uniu, um dia compreenderá, num espelho qualquer, a maravilha de ser quem é. Nem mais, nem menos, mas maravilhosamente ele mesmo. 
 
E essa unicidade, esse pertencimento, esse controle sobre os dados, essa é a Terra Prometida que Deus nos deita nos ombros, não como peso, mas como responsabilidade de sabiamente conduzir de volta. Ele brinca com os dedos, carregando as notas da música da vida, e nos entrega para que dela desfrutemos piedosamente, construindo as pontes que nos levem além dos simples olhos que miram profundos. Ele desapossa o inimigo daquela terra e semeia seu amor, tornando-nos conscientes do pertencimento a ele e, desdobrando os cantos da memória, construir a sabedoria consolidada na experiência de compreender a necessidade do retorno ao vaso de sopros que é o próprio Deus. 
 
Esse território que Deus nos dá, aquele limiar por detrás dos olhos no espelho, é único e impenetrável, segue sua carreira ouvindo as vozes de dentro que o inspiram. Ninguém perturba senão pela autorização dele. As vozes, milhares delas, são os demônios que o definem, mas ínfimas frente à voz inspiradora daquele que os criou todos. Quando é permitida àquela doce voz se sobressair às outras, a vida se torna um mar infinito de belezas e mel que torna tudo tão humano quanto as lágrimas de felicidade que jorram nos olhos do ser no espelho. 
 
Ouvir as vozes dos demônios que existem e criamos inconscientes em nossas almas é cultuar aos deuses que não são divinos. Agora, ouvir a voz do Deus único, a verdadeiramente inspiradora para consolidar as emoções, histórias e vivências em sabedoria plena e poderosa, isso é atingir a Terra Prometida. Não há exército, nem cornetas, nem armas que possam destruir a solidez das muralhas que suportam a paz interior criada pela inspiração daquele momento. 
 
Um barulho lá fora chama a atenção, e os olhos se desviam do olhar no espelho. Prende-se a algo, e sai de perto. Aquela consciência se parte e se vai, mas fica incrustada no ser que se transmutou pela consciência, e o acompanhará para sempre. Não há como fugir à profundidade daqueles olhos fitando os dele. 
 
E lá no fundo ouve a voz inspiradora que o faz compreender que os ecos das vozes anteriores são rumores de um mundo que não existe. O real, o factível é apenas a voz doce e única de Deus inspirando a beleza do mundo, a beleza de ser único e querer pertencer à unidade e universalidade de seu criador. 

 

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