Dia 76 – Arrependendo-se

Juízes, 10:13-16 – (13) Contudo vós me deixastes a mim e servistes a outros deuses, pelo que não vos livrarei mais. (14) Ide e clamai aos deuses que escolhestes; que eles vos livrem no tempo da vossa angústia. (15) Mas os filhos de Israel disseram ao Senhor: Pecamos; fazes-nos conforme tudo quanto te parecer bem; tão-somente te rogamos que nos livres hoje. (16) E tiraram os deuses alheios do meio de si, e serviram ao Senhor, que se moveu de compaixão por causa da desgraça de Israel.

Todos nós temos um comportamento cíclico. Nos apegamos à etérea presença de Deus nos momentos críticos e pedimos a sua intervenção, sem compreendermos que ele esteve e está sempre presente, mesmo quando não nos dedicamos a sua inspiração. Nos humilhamos e ele nos faz abrir os olhos para a sua presença constante.

Esta característica de mover-se do lado bom ao mal do ser humano é a dualidade que a vida tem por objetivo reduzir até a completa eliminação. No princípio, nossa inocência não nos permite compreendermos esses fenômenos e, à partir da consciência, movemo-nos para diminuirmos paulatinamente as distâncias que nos definem. Quando fundimos os pontos do bem e do mal tornando-os um só, tornamo-nos a santa parcela doada na criação. A alma humana é dual entre os extremos, e a santificação se dá não pela eliminação ou desprezo de qualquer dos dois, mas pela fusão que gera a complexidade da composição do próprio Deus. Ele é o criador, a chama de onde advém tudo e, portanto, também é aquele que criou o que chamamos de mal. O mal, de fato, existe somente em nossa análise moral pois é somente uma das facetas de nossa personalidade. Por ele distanciamo-nos de Deus para, ao final, atentar-nos à necessidade do retorno.

Mas qual a exigência de Deus em esse seu retorno? O texto em referência é muito importante para esclarecer, pois ele mostra que Deus, vendo a humilhação e arrependimento dos filhos de Israel por terem se perdido e, dominados, adorado os deuses que não lhes respondiam, ele compadeceu-se deles. Deus não moveu mundos, nem matou impuros, nem muito menos exterminou a humanidade (já que havia garantido a Noé que aquela tragédia jamais ocorreria novamente). Ele compadeceu-se do povo sobre sua desgraça.

Compaixão é a compreensão do estado emocional do outro. Quando você consegue compreender as emoções que levaram o outro a agir como agiu, você está compadecendo dele. E foi exatamente o que Deus fez ali, e que opera em nossa vida. Ele, dono do tempo, recolhe as migalhas de nossos pecados atrás de nós e, dentro de sua infinita bondade e amor que se define, compadece-se de nós compreendendo que nosso erro foi decorrência de nossa ingenuidade, egoísmo, incerteza, ignorância e, por esta análise, perdoa-nos.

A chave da vida santa exigida por Deus é, sem dúvida, o arrependimento. Como dito, Deus é o ser supremo, aquele pelo qual tudo acontece, aquele no qual tudo se dá. Assim, portanto, ele é profundamente consciente de tudo, mas somente se move para a compaixão quando nos arrependemos, ou seja, quando reconhecemos que independentemente daquilo que nos demoveu, cometemos um erro terrível que nos tirou da trilha de nossa vida. Esse reconhecimento, quando consolidado em sabedoria, é a experiência que Deus espera de nós nessa fase aqui quando, selecionados na essência de Deus, somos derramados para compreendermos a enorme profundidade de nossa fonte. Sendo parte integrante de Deus, provemos-lhe a compreensão, pela compaixão, de todos os limites de sua própria infinitude.

Por mais que nos atemos a isso tudo, sempre tornamos ao ponto anterior, criando em nosso seio o pecado e arrependendo-nos. Como tal, Deus se compadece e retornamos à trilha. Mas por que? A resposta é mais simples do que parece. Já falamos disso, mas vale a pena retomar: somos dotados de livre arbítrio desde o princípio, mas consolidamos a sabedoria somente ao final. Com isso, todas as nossas experiências são únicas já que o cenário se transmuta a cada cena, incorporando os odores e fragrâncias da anterior. Não caímos duas vezes no mesmo erro, pois somos diferentes da vez anterior, e a nossa capacidade de analisarmos transmuta no filtro de nossa sabedoria que, aos poucos, se consolida parcialmente até atingir o ápice do conhecimento pleno. Arrepender-se é o sentimento residual da visão pelo filtro novo segundo o qual a imagem de ignóbil vai se tornando translúcida. A vida é, assim, um círculo virtuoso em que vamos nos distanciando cada vez mais do terreno indo direto para o santo.

Nem todos somos iguais. Percebemos nossos erros somente quando nos deixamos invadir pela beleza e doçura da voz que inspira. Ela nos faz enxergar muito além dos efeitos racionais e materiais de nossos erros, mostrando a essência intangível deles. Quando nos damos conta, percebemos que esses danos são muito maiores e profundos que aqueles e, assim, retornamos à consciência do pertencimento à divindade.

Finalmente, quando nos deixamos levar pela inspiração não só pela revisão de nossas vidas, mas também pela ação daquilo que estamos fazendo, transferindo a análise do que foi para o que está sendo e também para o que será, aproximamo-nos do ser criado por ele, preparando-se para o retorno. Nesse momento, compadecendo de nós mesmos e do próprio Deus, elevamo-nos além de nossas carnes, atingindo o centro do sangue, além de nosso barro indo ao centro de nosso sopro.

Sentado descalço no topo da montanha, Deus olha no fundo de nossos olhos e, compadecido, percebe que valeu a pena.

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