Dia 66 – O Rio

rio

 

Josué, 10:8 – E o Senhor disse a Josué: Não os temas, porque os entreguei na tua mão; nenhum deles te poderá resistir.
Josué, 10:42 – E de uma só vez tomou Josué todos esses reis e a sua terra, porquanto o Senhor, o Deus de Israel, pelejava por Israel.

 
O plano primordial de Deus não é destruir povos, mas restituir a ordenança àqueles a quem foi prometida a terra. A Terra Prometida é o lugar que Deus reservou a seus filhos, para que experimentassem a bonança plena que enche os pulmões e que, ao final, deixe ouvir a voz doce que inspira. 
 
Deus se aliou a Noé, e a ele prometeu que aquilo seria para a eternidade. O homem Lhe teria como princípio e, mantendo-o, lhe seria entregue o alimento ao corpo para que a alma se purificasse pelas ondas intermitentes da inspiração e sabedoria, culminando no mergulho profundo no líquido amoroso de Deus. E assim o fez com toda a descendência de Abraão. 
 
A vitória do exército de Josué nas terras além Jordão é a vitória do próprio homem contra seus instintos que o separam da santidade exigida por Deus. Ele nos prometeu, selando sua aliança através do sopro, que a jornada seria cheia de amarguras e dores mas que ao cabo, pele sangrando pelo sol ardente do deserto e alma surrada pelos desafios, os exércitos cairiam a nossos pés. E é exatamente isso que nos acontece. 
 
A princípio, imaginar-nos filhos de um Deus misericordioso nos traz a segurança do pertencimento a um plano maior. De fato, nada pode nos alcançar, mas isso não quer dizer que não tenhamos que carregar toras e pedras pesadas para atingirmos o cume. Ser filho de Deus não é gozar da paz de não ter desafios e ver o vermelho do sangue, mas antes dispor das forças para vencer os exércitos. O amor que nos une são as trombetas e os gritos em Jericó. 
 
Deus não nos prometeu nunca que não haveria muralhas nas cidades que conquistaríamos, nem mesmo que não haveria luta para a derrubada dos reis. Ele não nos prometeu seguir a frente derrubando todos, mas prometeu-nos  a espada. A força que a levanta, essa é a nossa própria energia. Pela nossa vontade tornamo-nos além de nós mesmos e o legado da vida são, enfim, os grãos de mostarda da sabedoria colhidos durante a jornada. Com eles, seremos mais do que nós mesmos. 
 
A prata dos cabelos escorrendo suave pela pele nos dá o toque da vida que passa sem cessar. A vida é uma correnteza de rio que vai sem pedir licença, sujeita à força que a faz seguir sempre em frente. Navegamos livres por ela e, mesmo que tenhamos desejos e quereres, ela vai sempre na sua direção. Comandamos nossas vontades, mas o relógio é intermitente e suave desliza por si mesmo até o final dos tempos. Deus nos permite navegar nesse rio, sentirmos a água gelada contornar as curvas de nossos corpos nus vagando, levando-nos, serpenteando por toda a sua extensão. Mas a permissão é de desfrutar, não manejar. 
 
Vivemos livres e pela liberdade pagamos com a dor. Deus não nos quer servindo-Lhe, mas nos quer servindo ao nosso projeto de sacralidade pelo qual nos tornamos mais próximos, a cada dia no navegar no rio, da fluidez da correnteza. Ele nos quer vencendo os desafios para superarmos nossos próprios temores. Sua misericórdia está no prover a vida que enfrente os desafios e não por guardá-la deles. Esse é o nosso legado. 
 
Que sejamos mais livres no navegar, mas que também saibamos conduzir nossas vidas para evitar as pedras do fundo. Que, suavemente, mergulhemos na cachoeira que temos ao final. A vida não é só mergulho, nem só corredeira, nem só cachoeira. A vida é a confluência do rio e de nossos corpos no compasso do tempo que não se extingue, mas flui eternamente.
 
Deus nos deu a Terra Prometida, e nela as muralhas de Jericó. Mas também deu-nos os anciãos e suas trombetas. Se unirmo-nos e unissonante gritarmos, elas se romperão e tomaremos o que nos é dado por Ele. 
 
Ser humano é ser filho de Deus. E ser filho de Deus, é ser parte do universo que Ele é. 
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