Dia 65 – Estrangeiros

Estrangeiros

Josué, 5:12 – E no dia depois de terem comido do produto da terra, cessou o maná, e os filhos de Israel não o tiveram mais; porém nesse ano comeram dos produtos da terra de Canaã.

 
Tudo tem o seu momento certo. Deus provê o maná, alimento para o corpo para que a alma encontre a voz que a alimenta espiritualmente e, cessando esse, nas mãos temos o pão que tiramos da terra. Deus permite que nos desafiemos, que nos tornemos menores ou maiores, mas nunca nos permite reduzirmo-nos à nulidade. 
 
Por esse princípio, Deus se antecipa na providência. A providência de Deus cerca o mundo e, inserido nele, ao humano sempre haverá o pão necessário. O pão que alimenta o corpo é farto por todo o planeta, e a miséria decorre do poder de subjugar o próximo, ao invés de amá-lo. 
 
Em diversas oportunidades Deus explicita seu desejo mais profundo de que o homem ame o seu próximo para a ele propiciar o acesso ao seu alimento. Em suas leis, antes da travessia do Jordão, legisla inclusive sobre a vinha, para que não se apanhe toda a colheita e que o estrangeiro, tal como o povo que fugiu do Egito o fora, tenha daquele fruto para matar a sua fome. 
 
Com o tempo, aprendemos como raça como tirar do irmão seu pão para subjugá-lo e, dessa forma, consolidar o nosso poder. As guerras, todas, foram decorrentes das cercas que colocamos em nossas plantações. Esse ímpeto de impedir o irmão de ter acesso ao seu mais perfeito direito é suprimir a sua própria humanidade. A vida é digna, e para alcançar a nossa profunda e densa essência, nos conduzimos pelos seus caminhos e labirintos. Negar o acesso do irmão ao alimento que o mantém em pé não é contra ele, mas contra a nossa natureza de carregadores da centelha divina. 
 
Porque Deus nos deu a terra, mãe de nossos alimentos. Deus nos deu a vida e o entendimento, para dela nos alimentarmos fartamente. E quando, por força do estrangeiro, nos vimos famintos de carne, ele nos provê o maná. Pelo pecado do estrangeiro, o coloca na clandestinidade da presença de Deus e o força a morrer nas águas do mar que se fecha sobre ele. Ao verdadeiro povo que, sedendo atravessa o deserto, atravessa o Jordão, Deus provê o maná, devolve a terra, e somente retira o primeiro quando o segundo definitivamente se estabelece. Não há permissividade maior que a certeza disso. 
 
Mas, nesse teatro todo, quem somos? O povo de Deus que atravessa as agruras, peca, perde a confiança de Deus, se arrepende e pela interseção de Moisés e Josué diminui a ira de Deus e volta à Sua graça, ou o estrangeiro que subjuga e escraviza o irmão, privando-lhe da liberdade e do pão que o alimenta, quebrando o princípio básico do entendimento humano que é o de amar ao próximo? 
 
A resposta, se oriunda da sinceridade que mora no fundo de nossos corações, é de que estamos vendo ruir as colunas de água do mar, enquanto vemos os verdadeiros filhos de Deus fugindo de nossa espada. Essa é a verdade. Deus provê a seus filhos a esperança de voltarem a sua terra, e dela colherem o pão de cada dia. Mas ao estrangeiro e ao fio de sua espada, somente resta admirar e orar pela segurança instável das colunas de água no mar. Desonrar o irmão com a fome é condenar-se a si próprio. A ele, Deus proverá o maná e, no tempo certo, a terra para dela se alimentar. Ao estrangeiro, restará o mar que novamente se fecha e inunda e afoga a sua desumanidade. 
 
É importante lembrar que na humanidade, fruto do barro e do sopro, imersa no imenso respeito de Deus às suas vontades, deveria haver uma fraternidade que independesse do próprio Deus. Olhando crianças famintas na rua, vemos pelas lentes de nossos olhos que não há necessidade de Deus ordenar-nos amarmo-nos, bastando apenas o calor de nossas peles para acalentarmos aquele ser que, como nós, precisa de alimento para viver. Não ceder a esse instinto é desonrar a Deus e, principalmente a si próprio.
 
A alma é o sopro que se inspira pela voz de Deus em nosso quarto. A carne é o invólucro, templo vivo de Deus que precisamos manter vivo para que a inspiração tome lugar. E Deus deu-nos tudo para que jamais nos afastássemos desse princípio, mas nosso egoísmo e individualismo nos separaram de nossa humanidade. 
 
Que tenhamos a humildade de reconhecermo-nos estrangeiros e, redimindo-nos de nossas faltas, saibamos entender que precisamos deixar nossas armaduras para juntarmo-nos ao povo maltrapilho rumo ao deserto. A esses não está garantida a felicidade, a fartura, mas lhes é dado o alimento ao corpo e o calor de um deserto escaldante que os leve à terra prometida, com o alforge repleto de sabedoria. 
 
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