Dia 61 – O Livro da Vida

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Deuteronômio, 29:29 – As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, mas as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que observemos todas as palavras desta lei.

O projeto está feito. O cenário, as cores, a música ao fundo. Tudo planejado.

Ali se coloca o homem. Ser de carne e sangue que se divide em mil eus e procria-se pelo amor de peles e almas. Reticente ao inverso do espelho, revela-se único pelo amor e pela proteção dirigido a si próprio.

Na mesa, como que desleixado,  o livro. Ele conta história de homens, mulheres, filhos e filhas. Através das histórias conta a expectativa.  O homem o vê,  lê curioso,  mas sabe que a vida corre independente de tudo aquilo.

Sabe-se no controle.  Percebe as rédeas nas mãos.  Ele, enfim, sente-se Deus. Não lhe existe impossível,  pois o possível é o tangível que não lhe foge aos olhos.  Senhor de si, entende-se senhor de todos.

Mas ao final, ao cabo, as intempéries existem e afogado nas próprias ilusões,  fecha-se e percebe-se nu num quarto escuro. Em sua mente a batida forte do coração ecoa cadenciando sua voz trêmula. 

Enclausurado e atado pelas algemas da angústia,  a voz lhe diz do livro, do livro de histórias.  Abrindo o flanco da face, abre os ouvidos e finalmente ouve o verbo superior que lhe ordena.

Abre o livro. Palavras antes desconexas falando de histórias,  pela inspiração da outra voz tornam-se a leitura da própria vida,  própria voz, própria história.  Entende que ali está o segredo da razão fundamental da vida. 

Percebe que as dores e aflições não eram senão a ação da maravilha da vida. Lembra-se dos momentos da meninice e da simplicidade de seus pensamentos e a complexidade dos ensinamentos dos anciãos que ele desacreditava.

Lágrimas nos olhos, levanta-se e vai olhar-se no espelho. Encontra os próprios olhos e neles aquela luz que o fazia único.  Operado, vê nos seus espelhos d’alma o eu falante e julgador. Maravilha-se com a beleza de seu rosto cansado da vida e lembra-se de quem é.

Abaixa os olhos e fita a escrita em ouro na capa preta.  Aquele livro conta cada segundo de sua vida, discutindo-a e purificando as culpas.

Levanta os olhos e vê os olhos da outra voz dentro de si. Enfim percebeu que pertence e que faz parte.

Em poucos momentos foi-se de angustiado e deprimido para a suprema essência sa felicidade.

O livro não foi sua vida, mas mostrou-lhe o que é a vida.  Descobriu-o e viveu-o. Sabe que há mais, que há além.

Talvez haja mais, mas não é a hora de saber. Se o escritor não falou, sabe dentro de si que um dia irá desnudar-lhe além.

Volta seus olhos aos olhos no espelho. Sente que não pode manter o êxtase e precisa viver intensamente aquela sabedoria descoberta.  Calça os sapatos, coloca o livro na mesa e sai.

Volta alguns minutos depois,  esbaforido. Entra, olha ao redor e pega o livro.

Coloca-o dentro da bolsa e sai novamente. O livro,  agora, faz parte indivisível dele.

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