Dia 54 – A Chama, o Deserto

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Deuteronômio, 8:3 – Sim, ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que nem tu nem teus pais conhecíeis; para te dar a entender que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor, disso vive o homem.
 

A saliva grossa, a pele ardendo. O corpo se esvai no deserto, e as palmas dos pés doem apesar de a areia se adaptar à sua forma. A temperatura como que extrai do corpo as forças através daquele contato.

 

Olhando a frente, dunas às dúzias,  centenas, milhares, serpenteando desvairadas, misturando realidades insólitas a miragens transpostas. Mundos fundindo-se e bailando loucamente no horizonte.

 

Ao lado, milhares e milhares de corpos mutilados pela surra chicoteante diária do espírito do deserto.  O espírito que ao mesmo tempo seca o sangue da gente e umedece os olhos.

 

Instintivamente a mão cai num ato de romper com a força que a mantém firme acima da cintura e, ato contínuo, repousa no embornal que carrega o maná colhido pela manhã. Amargo e doce, seco e úmido,  inimaginável fonte de vida.

 

Por ele nenhum dos sentidos se completa. Não há prazer,  mas a confiança de que um dia a mais será vencido.

 

As juntas doem. O corpo dói.  A alma se corrói. É chegada a hora.  Involuntariamente,  tal como a mão caindo, os joelhos vão se curvando e aquele músculo que sustentava teso se faz líquido,  nuvem de poeira de sua força.  O queimar dos pés avança aos joelhos, às vergonhas, ao rosto e finalmente estraçalha a alma.

 

A luz se torna escuridão. O dia, noite.  A alma, silêncio. As dunas, cova.

 

No turbilhão das vozes caladas, a boca semi aberta, resquício de consciência, permite a invasão das águas que se alojam infantis entre os dentes. Ao longe, vozes dizendo línguas e a alma ficando presa entre dois mundos.

 

De um lado, escuridão abraçando o mundo todo. No lado oposto uma chama que não queima. Não há voz, não há som, mas a sua lei proclamada pela chama é sentida no âmago da alma do corpo surrado.

 

Diz da vida as regras,  dos amores as dores,  das esperanças as angústias.  Sua presença muda diz mais que mil palavras. A alma sorrindo retorna mansa ao corpo quase morto.

 

As descobertas das belezas dançam mil noites na boca inundada pela água,  e da chama uma estranha força exprime sua presença através do entendimento da importância do deserto, vertendo as vidas sugadas. 

 

Pela chama e agora com a chama, as forças vão se renovando e as dores penetrando o corpo moribundo novamente. A cura indolor da morte dá lugar à dor da vida. As línguas fundidas, inaudíveis e forjadas se apartam, e o amargo do maná retorna à boca. A ardência da areia quente mostra suas garras em dores como agulhas rompendo a pele.

 

Olhos abertos. As mesmas dunas. As mesmas dores. As mesmas angústias.  A mesma sina.

 

Mas com algo mais que, mais em si mesmo, completa as lacunas falantes cuja falta nunca foi percebida.

 

A chama. Por ela o deserto. Por ela os medos, as dores, as angústias,  o amargo doce do maná.

 

Além do alto das dunas está a chama.

 

O corpo levanta. Limpa-se. Alguém segura os braços ainda meio mortos. Irmãos de sina.

 

A perna volta ao movimento. 

 

Caminhar.  Caminhar até a chama.

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